Nada mais comum, hoje em dia, do que ouvirmos que alguém próximo a nós está com depressão, estressado, nervoso, irritado por “qualquer coisa”. É interessante notar que independe da condição social, da pessoa viver em cidade grande ou pequena, se é jovem ou com mais idade, se é homem ou mulher. A depressão parece ser uma epidemia ou, para usar uma expressão bem conhecida, um “sinal dos tempos” e, como tal, algo que já se incorporou ao nosso dia-a-dia, ao nosso modo de vida. "Não tem jeito, é assim mesmo” diremos em nossa passividade. Será que não tem jeito mesmo?
Creio que sempre que queremos tratar de um problema, devemos fazer uma pergunta fundante. Neste caso: como é o meu modo de vida? Desdobrando esta pergunta: Como estou vivendo? O que me deixa realmente realizado? O que me traz alegria, felicidade? Como fico bem comigo mesmo? Vamos aprofundar um pouco mais esse tema.
Vivemos a era da chamada pós-modernidade, onde o sentido coletivo deixou de ter importância, onde o que vale é o que EU tenho, o que EU valorizo, o que EU quero, etc. O ser humano, homem ou mulher, passou a ser uma máquina de consumo, comprando bens e serviços não por que necessita deles, mas porque é moda ou porque os outros têm, ou pior, porque a propaganda mostra que tal “celebridade não vive sem aquilo” e acha incrível que outros não o tenham.
Será que realmente eu preciso do último tipo de celular que foi lançado 30 minutos atrás, que faz absolutamente tudo (tem GPS, armazena 10.000 músicas, filma, acessa internet, manda emails e, até, transmite vozes...)? Ou, pensando melhor, será que não conseguirei viver em paz enquanto não adquiri-lo, não importa que sacrifícios eu tenha de fazer para obtê-lo? Daqui podemos estender para vários outros bens: tênis, roupas, acessórios, apenas para ficar no básico, sem entrar em temas, digamos mais polêmicos como implantes, silicones, bronzeamentos e clareamentos, lipoaspirações, etc. Será que não estamos dando demasiado valor apenas para o exterior? Será que não estamos atendendo a apelos de padrões impostos por uma sociedade intensamente consumista e hedonista? E o nosso interior como está? Estou me preocupando com o meu EU verdadeiro, com aquilo que sou de verdade, sem falsidades e aparências?
O ser humano é um ser social e gregário desde que vivia nas cavernas e se organizou em sociedade de acordo com sua própria natureza. Ele precisa de outros seres humanos para uma vida e convivência adequada e produtiva. Mais ainda, ele precisa fazer algo de bom para os demais, para se completar como ser humano saudável, equilibrado, feliz e produtivo.
Caso ainda não tenha feito, experimente fazer a seguinte experiência: por um tempo determinado, deixe de lado seus “problemas” e se preocupe altruisticamente, com problemas de outros, gente conhecida sua ou não. Pense em fazer um trabalho voluntário, simples, sem altos pensamentos, sem querer salvar o mundo. Pode ser em seu clube, sua igreja, sua escola, sua empresa, na entidade beneficente que você já ajuda financeiramente. Aqui, não é pura filantropia ou doação de dinheiro. Trata-se de você se doar, você mesmo, com aquilo que você tem de melhor. Certamente você pode aconselhar, ensinar, orientar, tratar, escutar, enfim promover a vida, doar a sua atenção a quem mais precisa naquele exato momento. Faça apenas pelos outros, descompromissadamente.
Muitas empresas orientam (obviamente, não podem impor) seus colaboradores a realizarem algum tipo de trabalho voluntário. Faz parte da formação da pessoa em sua totalidade, não visando apenas sua vida profissional. Alguns anos atrás, quando ainda militava na carreira corporativa, verifiquei que algumas empresas já iam um pouco mais além: o trabalho voluntário fosse ele qual fosse, já era valorizado como um diferencial para a avaliação pessoal daquele funcionário, tal a importância que a empresa dava para esta ação. Dedicar-se a uma causa, ou aos outros além de fazer bem, além de completar a pessoa, ainda pode trazer outros benefícios.
Tente abandonar por um tempo os supostos prazeres, tais como passatempos inúteis, conversas vãs e desinteressantes, leituras e programas não edificantes, TV e internet que não lhe acrescentam nada e tente mudar o vazio para algo que o preencha, fazendo algo de bom para o outro. Você perceberá sua vida mudar...
Não vivamos contra nossa natureza de seres humanos, que nos faz depressivos e infelizes. Vamos deixar de lado o eu, o “ego-ísmo” e viver conforme nossa natureza de “com-vivencia” social. A busca do equilíbrio é um processo que não é fácil nem simples, requer esforço e dedicação, mas vale a pena tentar porque encontraremos a nossa verdadeira essência, uma razão especial para viver. Sentirmo-nos bem fazendo o bem, sendo realmente produtivos, não por uma questão financeira, mas por puro amor humano.
Não ter o que fazer deixa nossa cabeça vazia e nada como a antiga sabedoria de nossos avós: “Cabeça vazia é oficina do demônio”. Troquemos o “eu” pelo “nós”, o individualismo pelo coletivo e certamente viveremos mais felizes e contentes. Passaremos a ver soluções no lugar dos problemas e a perceber que os problemas dos outros são, em muitos casos, maiores que os nossos. O ser humano é, ontologicamente, preparado para abrir-se para o alto e para o bem, para o seu semelhante e para Deus (seja qual for sua confissão religiosa), e não para baixo ou para o vazio.
Cabe a cada um de nós ajudar a quem precisa para assim ajudar a nós mesmos e fazer deste mundo um lugar melhor para se viver, dignificando a humanidade.
Celso Tracco
Economista, executivo e administrador de empresas. Atualmente estuda Teologia e Filosofia. É membro permanente da Lotuslife Desenvolvimento Humano.
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