sábado, 15 de maio de 2010

Relacionamentos: complicado?

As pessoas tendem a dividir os relacionamentos em, pelo menos, duas “categorias”: aqueles em que há amor (amizades, familiares e amorosos) e aqueles em que as pessoas são indiferentes umas às outras (como no trabalho, por exemplo). Imaginam que são relações completamente diferentes e que, portanto, demandam atitudes e posturas diferentes. Mas, se isto parece ser verdade, não é. É extremamente difícil encontrarmos pessoas que nos sejam, realmente, indiferentes. Mesmo o atendente de uma loja, o caixa de um banco ou alguém que encontramos na padaria, que achamos que estão completamente distantes de nós, entram em nossas vidas sem percebermos. Basta, por exemplo, lembrar que encontros desafortunados no trânsito, entre pessoas completamente estranhas entre si, podem resultar, até, em morte!

De fato existe apenas um tipo de relacionamento: aquele em que duas ou mais pessoas participam, em algum nível, das vidas umas das outras. E quanto maior for esta participação, mais afetos estarão envolvidos (amor, medo, expectativas, ressentimento...) e mais intenso ele se torna. Se há poucos afetos, o relacionamento pode ficar morno, e, às vezes, indiferente, enquanto nada acontecer que mude isso. Se você vive entre pessoas, é melhor dar um jeito de se dar bem com elas porque, se não, vai acabar se dando mal (com elas e com este pedaço da sua vida)...

Nosso olhar faz a diferença

A quase impossibilidade de sermos indiferentes uns com os outros tem uma razão, ao mesmo tempo, simples e pouco entendida: nós nos transformamos em seres humanos à imagem e semelhança de outros seres humanos e, portanto, somos todos, de alguma forma, “semelhantes”, nos sentimos semelhantes. Este sentimento gera expectativas (inconscientes): imaginamos que os outros querem o que queremos, sentem o que sentimos, sejam como somos. O que, certamente, não é verdade e faz com que nossas relações sempre partam de expectativas falsas, um relacionamento implícito e automático em que haverá frustração cada vez que uma destas expectativas não for satisfeita! Portanto, a partir do momento em que haja outras pessoas em torno de nós, relacionamentos serão criados assim que permitirmos que elas participem de alguma forma da nossa vida, mesmo que seja apenas para nos vender um sorvete!

Como sempre vivemos segundo nosso ponto de vista, todas estas interações serão interpretadas por nós segundo nossas expectativas, gerando enormes mal-entendidos. Se, por alguma razão, eu não sou capaz de olhar para mim e enxergar minhas mazelas, vou tender a criticar e culpar os outros por coisas que, na maior parte das vezes, eles nem sequer perceberam que fizeram... As pessoas que cometem mais injustiças são aquelas que têm menos capacidade para questionar seus pontos de vista. Não desenvolvem consciência critica e, portanto, defendem suas idéias com uma “razão burra”: dão ênfase aos argumentos a seu favor e simplesmente não vêm os contrários. Incapazes de questionar suas “verdades”, assumem uma posição de não ter mais o que aprender (onipotência).

Para se ter bons relacionamentos, amorosos ou não, na família ou no trabalho, é essencial perceber estas coisas e exercitar a capacidade para escutar o outro e realmente entender a mensagem dele ao invés de assumir (quase sempre, inconscientemente) que sabe do que se trata. Isto não é uma coisa fácil, seja com pessoas amadas ou não, e por isso mesmo deve ser um exercício!

Se tendemos a ter boa-vontade, generosidade, compreensão, com as pessoas que amamos, justamente porque gostamos delas, muitas vezes nossa história de vida com elas acaba complicando nossa capacidade de escutá-las (pois acreditamos que as conhecemos e as pré-julgamos com muita facilidade, criando muitas expectativas que podem ser completamente falsas!) Por outro lado, quando não há amor, quando as pessoas não se conhecem muito, imagina-se que será mais fácil porque “não vamos dar muita importância ao que vem delas”, mas não é bem assim: como não sentimos nada por elas, não haverá nem boa-vontade e nem tolerância, fundamentais para segurar a frustração e dar abertura para o entendimento.

Nossas defesas: um obstáculo a ser vencido


É muito comum, em todos, nós a presença de mecanismos de defesa, que usamos para nos proteger das “agressões” do mundo. Defendemos o que queremos parecer (nossa imagem), nos defendemos de perdas, nos defendemos de ter decepções... Essas defesas costumam ser o principal obstáculo a bons relacionamentos: acabamos vivendo “personagens”, como verdadeiros atores, nos tornando, muitas vezes, arredios, desconfiados e distantes, o que pode nos fazer pouco autênticos, tensos e superficiais, tornando nossos relacionamentos desgastantes e bem pouco satisfatórios.
Bons relacionamentos demandam que se seja o mais autêntico possível, aceitando-se como se é e aceitando as outras pessoas como elas são, abrindo-se às trocas com elas sem medo. Afinal, decepções e perdas são inevitáveis, fazem parte da vida, e não vale a pena sacrificar bons relacionamentos para evitá-las.

As ofensas e a baixa auto-estima

A capacidade de relevar, de “deixar pra lá”, está diretamente ligada à possibilidade das pessoas de abrirem mão daquilo que elas acham que lhes foi feito, ou seja, de esvaziarem de valor aquilo que tomaram como ofensa.

As pessoas com auto-estima baixa, por não se gostarem, estão sempre na expectativa de receberem sinais de aprovação e elogio dos outros, o que as deixa sentindo-se frágeis e dependentes. Por isso, muito facilmente caem na armadilha da auto-piedade e do ressentimento. Se ofendem com muita facilidade e dão um peso enorme à “ofensa” de que se sentiram vitimas. Por isso, têm muita dificuldade em perdoar. A si mesmas, porque não se gostam e são super-exigentes consigo, e aos outros porque as “ofensas” sempre adquirem um caráter de humilhação.

As situações que envolvem humilhação, aliás, são características de quem tem baixa auto-estima e são as de reações emocionais mais intensas (e de constantes destemperos). É comum relacionamentos amorosos terminarem deixando pelo menos um dos parceiros se sentindo muito ferido pela humilhação. Muitas pessoas carregam, por toda a sua vida, no fundo da alma, aqueles que as humilharam, sem nunca serem capazes do perdão.

A capacidade de perdoar destas pessoas só aparecerá quando sua auto-estima melhorar e o que aconteceu perder parte da importância que teve para elas.

Evitar as ofensas é bem melhor!

Nossas emoções são muito importantes para nós. São uma fonte insubstituível de informações preciosas sobre o que nos afeta. Mas vivê-las intensamente demais pode nos trazer complicações, porque quanto mais intensas forem, mais nos deixarão confusos, tornando-se péssimas conselheiras. Deixar que as emoções nos arrebatem nunca é uma boa idéia. Em meio a uma profusão de afetos, acabamos nos perdendo e dizendo coisas que não gostaríamos de ter dito ou tomando atitudes que, com a cabeça no lugar, não teríamos tomado, provocando, nos outros, reações emocionais mais ou menos imprevisíveis e levando a situações, muitas vezes, sem volta.

A temperança é uma virtude a ser conquistada e o auto-conhecimento é o primeiro passo para isto. Se, durante as pequenas e grandes tempestades emocionais, nós conseguirmos nos perceber e estancar o processo exercitando o perdão e a tolerância, se conseguirmos nos apegar ao respeito e à lealdade, a relação sairá fortalecida e, com ela, nós mesmos. E, para isto é importante aprender a escutar-se! Perceber seu destempero e baixar o tom.

Relacionamentos e espiritualidade

Bons relacionamentos precisam ser construídos e cultivados. No seio familiar, é preciso aprender a respeitar os limites de cada um, evitando proximidade excessiva, e tendo cuidado para escutar as pessoas, sem julgá-las. Com pessoas estranhas, ter o cuidado de desenvolver por elas respeito e atenção suficientes para fazer nascer boa-vontade e interesse pelo que fazem e dizem. Para isto, é importante que seja nosso desejo (que queiramos sinceramente) que o relacionamento seja bom, a ponto de fazermos o esforço necessário por ele: conter nossa tendência ao julgamento, conter nossa tendência ao controle, conter nossa tendência a nos impor e impor nossas opiniões. Em outras palavras, é importante colocarmos o relacionamento acima dos nossos “interesses pessoais”. Isto é o que podemos chamar de viver a espiritualidade nos relacionamentos: querê-lo como um bem maior. É claro que isto só será possível se estivermos plenamente convencidos do bem que isto nos trará...

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