terça-feira, 9 de março de 2010
Doar-se ao próximo, faz bem?
Creio que sempre que queremos tratar de um problema, devemos fazer uma pergunta fundante. Neste caso: como é o meu modo de vida? Desdobrando esta pergunta: Como estou vivendo? O que me deixa realmente realizado? O que me traz alegria, felicidade? Como fico bem comigo mesmo? Vamos aprofundar um pouco mais esse tema.
Vivemos a era da chamada pós-modernidade, onde o sentido coletivo deixou de ter importância, onde o que vale é o que EU tenho, o que EU valorizo, o que EU quero, etc. O ser humano, homem ou mulher, passou a ser uma máquina de consumo, comprando bens e serviços não por que necessita deles, mas porque é moda ou porque os outros têm, ou pior, porque a propaganda mostra que tal “celebridade não vive sem aquilo” e acha incrível que outros não o tenham.
Será que realmente eu preciso do último tipo de celular que foi lançado 30 minutos atrás, que faz absolutamente tudo (tem GPS, armazena 10.000 músicas, filma, acessa internet, manda emails e, até, transmite vozes...)? Ou, pensando melhor, será que não conseguirei viver em paz enquanto não adquiri-lo, não importa que sacrifícios eu tenha de fazer para obtê-lo? Daqui podemos estender para vários outros bens: tênis, roupas, acessórios, apenas para ficar no básico, sem entrar em temas, digamos mais polêmicos como implantes, silicones, bronzeamentos e clareamentos, lipoaspirações, etc. Será que não estamos dando demasiado valor apenas para o exterior? Será que não estamos atendendo a apelos de padrões impostos por uma sociedade intensamente consumista e hedonista? E o nosso interior como está? Estou me preocupando com o meu EU verdadeiro, com aquilo que sou de verdade, sem falsidades e aparências?
O ser humano é um ser social e gregário desde que vivia nas cavernas e se organizou em sociedade de acordo com sua própria natureza. Ele precisa de outros seres humanos para uma vida e convivência adequada e produtiva. Mais ainda, ele precisa fazer algo de bom para os demais, para se completar como ser humano saudável, equilibrado, feliz e produtivo.
Caso ainda não tenha feito, experimente fazer a seguinte experiência: por um tempo determinado, deixe de lado seus “problemas” e se preocupe altruisticamente, com problemas de outros, gente conhecida sua ou não. Pense em fazer um trabalho voluntário, simples, sem altos pensamentos, sem querer salvar o mundo. Pode ser em seu clube, sua igreja, sua escola, sua empresa, na entidade beneficente que você já ajuda financeiramente. Aqui, não é pura filantropia ou doação de dinheiro. Trata-se de você se doar, você mesmo, com aquilo que você tem de melhor. Certamente você pode aconselhar, ensinar, orientar, tratar, escutar, enfim promover a vida, doar a sua atenção a quem mais precisa naquele exato momento. Faça apenas pelos outros, descompromissadamente.
Muitas empresas orientam (obviamente, não podem impor) seus colaboradores a realizarem algum tipo de trabalho voluntário. Faz parte da formação da pessoa em sua totalidade, não visando apenas sua vida profissional. Alguns anos atrás, quando ainda militava na carreira corporativa, verifiquei que algumas empresas já iam um pouco mais além: o trabalho voluntário fosse ele qual fosse, já era valorizado como um diferencial para a avaliação pessoal daquele funcionário, tal a importância que a empresa dava para esta ação. Dedicar-se a uma causa, ou aos outros além de fazer bem, além de completar a pessoa, ainda pode trazer outros benefícios.
Tente abandonar por um tempo os supostos prazeres, tais como passatempos inúteis, conversas vãs e desinteressantes, leituras e programas não edificantes, TV e internet que não lhe acrescentam nada e tente mudar o vazio para algo que o preencha, fazendo algo de bom para o outro. Você perceberá sua vida mudar...
Não vivamos contra nossa natureza de seres humanos, que nos faz depressivos e infelizes. Vamos deixar de lado o eu, o “ego-ísmo” e viver conforme nossa natureza de “com-vivencia” social. A busca do equilíbrio é um processo que não é fácil nem simples, requer esforço e dedicação, mas vale a pena tentar porque encontraremos a nossa verdadeira essência, uma razão especial para viver. Sentirmo-nos bem fazendo o bem, sendo realmente produtivos, não por uma questão financeira, mas por puro amor humano.
Não ter o que fazer deixa nossa cabeça vazia e nada como a antiga sabedoria de nossos avós: “Cabeça vazia é oficina do demônio”. Troquemos o “eu” pelo “nós”, o individualismo pelo coletivo e certamente viveremos mais felizes e contentes. Passaremos a ver soluções no lugar dos problemas e a perceber que os problemas dos outros são, em muitos casos, maiores que os nossos. O ser humano é, ontologicamente, preparado para abrir-se para o alto e para o bem, para o seu semelhante e para Deus (seja qual for sua confissão religiosa), e não para baixo ou para o vazio.
Cabe a cada um de nós ajudar a quem precisa para assim ajudar a nós mesmos e fazer deste mundo um lugar melhor para se viver, dignificando a humanidade.
Celso Tracco
Economista, executivo e administrador de empresas. Atualmente estuda Teologia e Filosofia. É membro permanente da Lotuslife Desenvolvimento Humano.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Dar e receber
Olhando para o comportamento das pessoas, muitos consideram a generosidade uma "qualidade de caráter" e o egoísmo um "defeito de caráter". Mas estes são, na verdade, reflexos de algumas características da personalidade que aparecem na convivência com os outros e que, se olhadas mais de perto, vão revelar os funcionamentos que estão na sua base:
- ter ou não a capacidade de ver os outros em suas diferenças e necessidades
- ter ou não a capacidade de dividir suas coisas com os outros
- sentir-se ou não à vontade no ato de doar
Se observarmos a Natureza, que sempre achamos tão bela, vamos perceber que o egoísmo é a regra. Com exceção da maioria das mães, o que vale é “cada um para si e Deus para todos”. Isto vale inclusive para o ser humano. Todo pai e toda mãe sabem que ensinar os filhos a considerar os outros e dividir suas coisas com eles é muito difícil e dá muito trabalho! Se, por alguma razão, estes esforços não surtem os resultados “esperados”, estas capacidades estarão prejudicadas e as bases para a generosidade também.
Mas, e sentir-se “esquisito” ao pensar-se dando alguma coisa a alguém sem esperar nada em troca? De onde vem este sentimento? Há pessoas que sentem-se constrangidas, envergonhadas nestas situações.
A vergonha é sinal de que estamos preocupados com nossa imagem (o que vão pensar de mim?) Talvez estas pessoas, inconscientemente, não acreditem em suas boas intenções e, por isso, pensem: “vão achar que eu quero alguma coisa em troca” (talvez “prestígio”ou “vender” a imagem de “bonzinho”)
Isto, só cada um pode responder. Se alguém se sente assim, vale, aí, fazer uma auto-análise...
Se a generosidade é uma “conquista” da nossa educação, da nossa formação, ela é, também, um enorme bem para quem a tem. E não é só porque vão admirar você por isso. É, principalmente, porque ela vai proporcionar a você muito mais do que você proporciona aos outros com ela. Dar é muito melhor do que receber: e isto é muito fácil de perceber.
Em nossa vida profissional, quando recebemos as recompensas por nossa competência e habilidades, nossa alegria e satisfação podem ser muito intensas no momento, mas com o tempo nos acostumamos com elas e sua importância vai diminuindo. Você pode ficar muito feliz por ter sido capaz de comprar um Mercedez, mas não vai demorar para que ele se transforme em apenas um bom carro. Você pode sentir-se orgulhoso e cheio de si por ter conseguido chegar a vice-presidente da empresa, mas com o tempo isto vai representar apenas mais trabalho. As coisas que se recebe perdem logo o valor, por maior que sejam. Você pode receber atenção, afeto, amor intenso de alguém; se não for alguém de quem você goste, não vai significar nada. E, mesmo quando você gosta mesmo deste alguém, com o tempo as demonstrações de afeto que você recebe dele vão ficando “comuns”, perdendo o valor.
Com o dar, acontece o contrário. Quando as pessoas se engajam em serviços voluntários, como passear com idosos ou ajudar crianças num orfanato, geralmente começam meio sem jeito, com algumas ações isoladas, mas sentem-se tão bem em perceber-se fazendo a diferença, percebendo-se capazes de mudar a vida de alguém que o prazer que sentem só aumenta e sua satisfação consigo mesmas também.
Muito embora nossa tendência seja de nos preocuparmos em ganhar, em receber, muito mais prazeroso é dar. Enquanto um milionário que more em Hollywood e tenha uma mansão e vários carros na garagem tem a tendência de ver sua vida com cada vez mais desinteresse e precise de cada vez mais coisas para “torná-la interessante”, Madre Tereza de Calcutá certamente sentia-se cada vez mais feliz a cada novo doente que conseguia tirar das ruas.
A generosidade, doar-se, traz o bem para quem recebe, retorna em bem maior para quem dá e cria um ambiente de boa-vontade e felicidade que contagia tudo que se faz nele. Experimente! Mas lembre-se: se alguém está dando, outro alguém está recebendo e se este alguém for você, você pode também dar enquanto está recebendo. Dê sua gratidão...